fbpx
Histórias globais, vozes locais

|| Louco é o novo normal

Ep. 2/3 – A História sem herói

Tati Bernardi

Read in english (EN) | Lire en français (FR)

Quando ia começar o jogo e tocava o hino, ficávamos amontoados na sala cantando com os jogadores (que ainda não eram bilionários e apoiadores de presidente genocida).

Conheço muita gente, sobretudo no meio cultural, que tem preconceito com novelas. Criticam as tramas bobas e fáceis, recheadas de personagens repetidos, maniqueístas e simplórios.
Confesso que, hoje em dia, não sou consumidora delas (portanto, não opino), mas é inegável o que muitos personagens já fizeram por nós.
Comecemos por Malu, papel de Regina Duarte no seriado “Malu Mulher”. Era o começo dos anos 80 e minha mãe vivia um casamento tóxico, limitante e infeliz. 
Foi quando encontrou forças naqueles diálogos, na energia daquela protagonista inesquecível, para se separar do meu pai.
Voltou a trabalhar, a estudar inglês e em pouco tempo seu salário já tinha ultrapassado o de muitos homens machistas da família.
Fez ginástica, pode finalmente usar minissaias sem aturar ninguém lhe perturbando, retomou o apreço por si mesma, teve alguns namorados e, graças a ter se tornado uma mulher mais realizada, pode também ser uma mãe melhor.

Anos depois, durante a minha pré-adolescência, lembro da obsessão por “Vale Tudo”. Novela em que Regina Duarte fez a pobre, honrada e batalhadora Raquel Accioli. 
Quem não se recorda dela sonhando com um país mais justo pra todos, sobretudo para os menos favorecidos? Já sua filha, a ambiciosa e preconceituosa Maria de Fátima, odiava “aquela gente” e faria de tudo para ter dinheiro e poder.
Se a novela fosse adaptada para hoje, Odete Roitman, outra personagem memorável no quesito “odiar pobres”, certamente estaria aplaudindo as falas do superministro Paulo Guedes.
No último episódio, o poderoso milionário (e bandido) Marco Aurélio, interpretado por Reginaldo Faria, mandava uma banana para o Brasil ao fugir do país impunemente.
Isso ia contra todos os princípios da personagem de Regina Duarte em “Vale Tudo” ; no entanto, ao pensarmos na Regina real de 2020, perigava ela pedir pra fazer uma selfie.
Passei boa parte dos anos 90 me vestindo de Porcina (nem que fosse para ir do quarto para a cozinha), personagem de Regina na novela “Roque Santeiro”. Eu tinha, na versão para crianças, suas “tiaras turbantes” e roupas exageradas.
A viúva fogosa fazia político de capacho, era a “dona”, e estendia a mão para que a beijassem. Que saudade de ver Regina fazendo um Sinhozinho divertido se ajoelhar e não servindo a um Sinhozinho que é a maior vergonha e depressão de uma nação. Ou, melhor dizendo, que saudade do seu “noivo” ser um Sinhozinho de mentira.
Mas a minha personagem preferida apareceu no período da adolescência: a espetacular Maria do Carmo. Eu estudava em uma escola de riquinhos e eles viviam me esnobando como se eu fosse lixo. Um dia, eu planejava: “esses desgraçados ainda vão me pedir ajuda, emprego (e amizade no Facebook)”!
Obrigada, Regina Duarte, porque já recebi muitos currículos de conhecidos daquela época. "Rainha da Sucata", na minha modesta opinião, exibiu a protagonista mais bem escrita de toda a história da Rede Globo.
Mas a nossa futura secretária da Cultura, que deve assumir o cargo no próximo dia 4 de março, infelizmente não é mais uma Helena que faz tudo por amor.
E eu, tão apegada às histórias bem construídas e contadas, sofro em ver o rosto de tantas heroínas apoiando um presidente fascista, ignorante, amigo de miliciano e misógino (isso pra encurtar a conversa).
Um homem que se refere de forma grotesca e criminosa ao falar de uma das mais sérias e respeitadas jornalistas do Brasil. Um dos piores capítulos de todos os tempos tem se provado ser a nossa realidade, uma novela só com vilões.

*

Quando eu era criança, em época de Copa do Mundo eu ajudava a pintar a bandeira do Brasil na rua, em frente à casa dos meus avós. Juntava um monte de gente da família (todo mundo morava meio perto), e eu podia ficar mais tempo brincando com meus primos. A gente também fazia bandeirinhas e pendurava em barbantes pra enfeitar os portões. Quando ia começar o jogo e tocava o hino, ficávamos amontoados na sala cantando com os jogadores (que ainda não eram bilionários e apoiadores de presidente genocida).
Meu avô colocava a mão no peito e minha avó perguntava, preocupada, "é o coração?", mas ele só estava sendo muito patriota. Eu, que sempre fui emotiva além da conta, chorava feito besta e tinha a minha clássica dor de barriga de quem estava tão feliz, mas tão feliz, que passava mal.
Depois, quando mudei de escola, descobri que todos os dias, após o recreio e antes do retorno para a classe, a gente tinha que cantar o hino e ver a bandeira ser hasteada. Confesso que aquele calor do meio da tarde dava um sono danado, mas nós, as meninas, aproveitávamos a fila ao lado dos meninos pra pegar na mão deles. E os professores deixavam, porque achavam que era amor à pátria. E vai ver era mesmo. Muitos namorinhos começaram por causa disso.
Aos 20 e poucos anos eu me inscrevi num prêmio que era o maior sonho de todo aspirante a publicitário, o Young Creatives. Fiquei em 11º lugar, e apenas os dez primeiros iriam pra Cannes com tudo pago e uma agenda infinita de palestras incríveis e festas promissoras. Eu chorei uma manhã inteira quando meu chefe da época, o Pedro Cabral, resolveu me mandar pela agência e ainda me hospedou num hotel bem melhor do que o muquifo em que ficaram as outras pessoas (perdão!).
Eu estava em uma fase em que amava tão absurdamente a minha vida, o meu trabalho, o futuro que me acenava reluzente e essa oportunidade (meu primeiro grande reconhecimento profissional), que quando vi dezenas de bandeiras do Brasil espalhadas pela Riviera Francesa tive medo de que meu coração parasse. Eu sei que é brega o que vou dizer, mas é um longo caminho do Tatuapé para o mundo, e eu senti como se chegasse à Lua e fincasse lá o meu verde e amarelo. Depois de muitas madrugadas ralando feito uma condenada e sofrendo bullying (porque 1- eu levava marmita e 2- a tampa dela era de oncinha), admito que me comovia com o lance do "sou brasileiro e não desisto nunca".
Daí resolvi que queria mesmo era ser escritora, e minha obsessão passou a ser o respeito dentro do meio literário, mais especificamente dentro da panela apimentada por barbudos com orgulho de ganhar parcos reais por página traduzida e feministas com sotaque de colégio-caro-cabeça. E de novo foi puxado. Eu não tinha feito letras ou sociologia na USP e ainda tingia o cabelo de loiro. Me odiaram o quanto puderam até perceberem que eu era legal pacas.
Quando eu já era "aceita", houve um churrasco inesquecível para ver um jogo do Brasil. A CBF, apesar de já ser a CBF, ainda não era estampa de gente ignorante, fascista e nojenta. Acho que foi a última vez que usei verde e amarelo com o orgulho de um nacionalismo romântico pau-brasil e não temendo ser associada a um nacionalismo nazista pau de arara.
Hoje observo meu país agonizar nos corredores cruéis do descaso. Meu hino ser usado por criminosos que disparam armas de pressão contra as janelas de Perdizes. Minha bandeira aquecer dementes que bradam contra enfermeiros e a democracia. Pobre do psicopata que nunca vai sentir tristeza e desespero.

*

Nossos filhos, netos, bisnetos, tataranetos, um dia estudarão o que os livros de história deverão chamar de "fenômeno do um terço". Foi no Brasil, na década de 20 do século 21. Um homem que dormia sob a bênção de um ilustre torturador, que ensinava crianças a fazer gesto de arma com as mãos, que dizia a uma mulher que ela não merecia nem ser estuprada. Prevejo esse futuro progressista e democrático e suas crianças e adolescentes boquiabertos: "E por que ninguém tirava ele de lá, professor?". E os professores, talvez filhos ou netos ou bisnetos desse período de feiura hedionda, quiçá sobreviventes diretos dessa fase obscura, responderão apenas: "Por causa do um terço". "História do Fascismo no Brasil - A era Bolsonaro", capítulo "Coronavírus": "E ele acabou por dizimar dezenas de milhares de pessoas estimulando-as a sair ao encontro da própria morte". "Mas, professor, nem assim derrubaram essa desgraça do poder?" "Não, porque, conforme expliquei na aula passada, e foi tema da última Fuvest, naquele período o chamado 'fenômeno do um terço' conseguiu entrar pra história, com o Congresso e com tudo."

"História do Fascismo no Brasil - A era Bolsonaro", capítulo "Coronavírus": "E ele acabou por dizimar dezenas de milhares de pessoas estimulando-as a sair ao encontro da própria morte".

"Mas, professor, nem assim derrubaram essa desgraça do poder?"

"Não, porque, conforme expliquei na aula passada, e foi tema da última Fuvest, naquele período o chamado 'fenômeno do um terço' conseguiu entrar pra história, com o Congresso e com tudo."

Claro que o país se perguntava: o que ainda falta acontecer? O que pode ser pior do que tudo de pior que uma pessoa pode pensar, falar, fazer e ser? Perto desse homem, as cagadas econômicas da Dilma e os vexames de playboy do Collor talvez fossem vendidos na forma de "livro de história para colorir" em bancas de jornal. As pessoas não conseguiam dormir: e se hoje ele saísse defecando em nossas cabeças? E se hoje ele estimulasse o espancamento de gays e mulheres? E se ele disparasse uma metralhadora em um filhote de labrador na porta de um supermercado? E se ele escarrasse coronavírus em velhos, doentes e favelados? E se ele derrubasse a escalada no Jornal Nacional apenas com o poder de sua mente macabra? E se ele mudasse a Constituição inteira, ou a rasgasse, ou tatuasse uma nova Constituição em seu peito, escrevendo apenas SOU EU, PORRA. E se ele estrangulasse até a morte uma grávida da periferia que não quer ser mãe? E se ele preferisse as lojas Havan mais saudáveis do que seres humanos? Haveria a comoção necessária? Espera, mas ele já não faz tudo isso?
Contudo, o "fenômeno do um terço" seguia inabalável, chamando barbárie de "atitude". Chamando assassinato de "livre comércio". Chamando fascismo de "direita". Chamando falta de caráter de "é o jeitão dele". Chamando a mais triste descrença nos alicerces do país de "fé em Deus". Chamando o que tem de mais terrível e podre e vil em nossos instintos primitivos de "contra a velha política". Chamando um fetiche sexual bem sujão e mal resolvido de "conservadorismo". Chamando crime organizado de "tudo pelos filhos". Chamando ditadura e tortura de "não tem negociação". Chamando não tem negociação de "pelo meu povo". Chamando psicopatia com perversão de "leite condensado no pão". Chamando uma enorme desculpa pra ser filho da puta de "raiva do PT". Chamando o fim da humanidade de "recomeço".

"Mas, professor, eles, o 'um terço', eram burros, detentores de muita ruindade no coração ou só estavam tristes e perdidos demais?" Eu queria poder ouvir a resposta.

Nós, os "66,6" (o número da besta: quem diria!), estamos gritando "Fora!!!", enquanto eles, os "33,3", enfiam um estetoscópio no nosso ânus e ordenam: "Fale 33, fale 33". Eu só espero ter pulmão amanhã e depois de amanhã. 
Eu só espero que você também tenha.
Tocou o sinal. Finalmente! Na próxima aula, vamos ver como isso tudo acaba.

Estes textos foram publicados anteriormente no jornal Folha de São Paulo

Não perca os próximos frictions... !

Sobre o autor

Tati Bernardi
+ posts

Tati Bernardi mora em São Paulo. Ela é escritora, roteirista e colunista do jornal Folha de São Paulo. Seu último livro é "Você nunca mais vai ficar sozinha" (Companhia das Letras, 2020).

  • Crônica | Mini-Série
    Ler
    Louco é o novo normal
    Ep. 1/3 : Neurose paulista
    Eu tenho motivos pra estar angustiada e louca e sofrendo? A maioria das vozes da minha cabeça dizem que não,porque sou privilegiada. 
  • Crônica | Mini-Série
    Ler
    Louco é o novo normal
    Ep. 3/3 – Deus é brasileiro, ainda ?
    Acreditei em Deus todos os dias da minha vida, mas vendo minha cidade transformada em locação de filme de zumbis, eu senti, pela primeira vez, que estamos sozinhos neste planeta.