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Histórias globais, vozes locais

|| Louco é o novo normal

Ep. 3/3 – Deus é brasileiro, ainda ?

Tati Bernardi

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Acreditei em Deus todos os dias da minha vida, mas vendo minha cidade pulsante transformada em locação de filme de zumbis, eu senti, pela primeira vez, que estamos sozinhos neste planeta.

A pedido da pediatra, escolhemos uma rua bem vazia e levamos nossa filha para dar uma volta. O dia estava lindo, mas eu só conseguia pensar na minha cachorra se esfregando em tudo e levando o vírus maligno pra casa.
Eu não parava de imaginar que aquele jovem atleta a cinco metros poderia, a qualquer momento, soltar um espirro veloz e assassino que chegaria até nós. O dia bonito só piorava a sensação terrível de que não existem mais dias bonitos.
Minha filha estava assustada com o vento chacoalhando as árvores e com os “cachorros bravos” em alguns quintais, e eu queria dizer a ela a frase mais reconfortante que eu lembro da minha infância: não precisa ter medo! Sempre que meus pais ou meus avós me falavam isso, eu via dias ensolarados, mesmo com o céu armando o maior temporal.
Porém, não consegui abrir a boca. Há anos eu não tinha uma crise de pânico e pude sentir ela chegar, acelerando meus pés ao mesmo tempo que amolecia os joelhos. Gelando minhas mãos ao mesmo tempo que fervia o peito. Fazendo os dentes de cima empurrarem os de baixo até meu rosto parecer uma cabeça de boneca enterrada por um soco.
Fui ensinada, quando criança, que Deus existe. Meus amigos criados por pais intelectuais sempre riram de mim. Mas eu, lá no fundo, é que estava rindo deles. Acreditei em Deus todos os dias da minha vida, mas naquele segundo, vendo minha cidade pulsante transformada em locação de filme de zumbis, tendo que lançar o dinheiro para o menino que pedia ajuda pra comer (como chegar muito perto das pessoas sem ter medo de morrer?), eu senti, pela primeira vez, que estamos sozinhos neste planeta.
Que meu pai, aos quase 80 anos, não pode fazer nada por mim. Que meu país, liderado por um demente psicopata, eleito pelo fascismo cotidiano, não pode fazer nada por mim. Que a ciência (que pavor, meu Deus!), segue respondendo diariamente que ainda não sabe o que fazer.
Eu lembro dos milhões de vezes que minha mãe me disse para enfrentar a vida. Sair do meu quarto, pegar o avião, não desmarcar as festas e as reuniões. Lutar com todas as minhas forças contra as minhas crises. “E daí se tiver muita gente?” E eu lutei e fiz tanta terapia e estudei tanta psicanálise que estava indo muito bem. E agora? Agora eu tenho medo até do boleto do condomínio que chega por debaixo da porta.
Eu passo tanto álcool que invalido o código de barras. Estar isolada no meu apartamento é como ter voltado mil casas no joguinho. Meu pânico deixou de ser fantasia ególatra e virou consciência social.
Minha filha continua assustada e me olha. O pai a pega no colo e diz: “Não precisa ter medo, é só o vento. Acho que o cachorro está latindo porque quer brincar”. Ela se acalma e acha que os galhos estão dançando. Dá tchau para os cães. Ou será que sou eu que acho? Sua infância está a salvo por enquanto. A minha também. Lembro que não tenho Deus, mas tenho o outro. Daqui a pouco é ele quem vai deitar meio angustiado no sofá e precisar de mim.
Na falta de Deus ou da crença em heróis, resta a gente. Penso nos amigos de quem, por gostar tanto, fico apertando a carne do braço e nos meus pais almoçando massa recheada de queijo comigo. Minha cabeça retorna às proporções humanas e deixo de ser um brinquedo feito de plástico oco pronto para ser esquecido numa caixa.
Faço tudo “o que dá pra fazer”, e isso me parece uma nova religião. Agora eu rezo todos os dias para essa divindade chamada “o que dá pra fazer”. Tenho vontade de erguer um altar para o santo “o que dá pra fazer”. A soma do meu “o que dá pra fazer” com “o que dá pra fazer” de todos que querem fazer alguma coisa que preste é o que chamo agora de fé.

*

“Meu bem, você tem que acreditar em mim. Ninguém pode destruir assim um grande amor”. Na voz de Gal Costa, do disco “Gal a Todo Vapor”. Agarre-se a essa música, essa letra, essa voz. Deite no escuro, aumente o som. “Meu bem, meu bem, meu bem, eu te amo”. Eu sei, amigos. Aqui também está um caos, por dentro e por fora.
Em Perdizes, agora, fascistas de varanda gourmet usam armas contra a indignação da democracia. Tenho medo que minha filha brinque no parco sol que irradia apesar das cortinas. Não podemos sair e, agora, nem ficar próximos das janelas. Mas a minha resposta é Gal cantando em meu fone de ouvido, bem alto.
Eu vou me agarrar a tudo que é bonito e, uma hora, vírus e vermes passarão. Então minha filha e eu e as músicas mais belas encontraremos, tão saudosas, os passarinhos e as ruas e os amigos e minha mãe e meu pai.
Procure agora o filme “Carodiário” , do Nanni Moretti. E quando tocar “I’m Your Man”, do Leonard Cohen, abrace a beleza. Na sequência da cena tem um trecho de “The Köln Concert” , do Keith Jarrett.
Aperte, esmague, esmurre a beleza. Depois busque mais Keith Jarrett no Google e veja o músico trepando com o piano. Que pianista, meu Deus! Você tem algum instrumento musical aí? Trepe com ele.
Que lindas as palavras que soarão mal aos ouvidos dos fanáticos que metem o hino nacional todo dia, às 20h30, nas orelhas dos vizinhos. Mas não falemos disso nesta coluna. Eu estava na segunda fileira quando Keith Jarrett tocou na Sala São Paulo. Ele gemia enquanto tocava. Encoxava o piano. Eu estou abraçada agora a essa lembrança.
Minha filha gosta de ficar deitada comigo na cama olhando bem grande para dentro dos meus olhos. Nós colocamos os rostos colados e brincamos de olhar bem profundo e bem enorme para dentro uma da outra. E eu penso que ela vai rir, mas ela fica alguns segundos assim até que me faz um carinho no cabelo.
Eu digo “te amo demais”, e ela responde “modemai”. Eu morro e renasço 489 vezes nesse tempo. O choque de adrenalina do amor mais surrealmente gigante. Agarre-se a ele. Sairemos dessa, claro. “ I’d be crazy not to follow. Follow where you lead. Your eyes. They turn me. . Radiohead é deprê, mas como me deixa feliz. Vou me agarrar à ptose de Thom Yorke pra sair dessa. Porque, apesar da cara de peixe esquisito, eu vejo tanta beleza.
Um dia o cinema vai voltar, e nossa vida com ele. A plateia do teatro aplaudindo e rindo. Vamos ouvir muitas tosses em um concerto e sentir enfado em vez de medo.
Uma hora minha mãe e meu pai entrarão por essa porta, e o mundo junto com eles. Irei com minha filha comprar mais massinhas em uma loja grande, colorida e barulhenta. E eu vou me arrepender de ter ido ao shopping, e não a um parque. De ter comprado a Escola da Pepa, em vez de mostrar patinhos em um lago. Porque lá fora há muitas opções, e eu tenho saudade das angústias que elas me traziam. Saudade até de ser uma creep vivendo “in the fake plastic Earth”.
Contra o vírus e o verme, abracemos a beleza. A cena dos violinos no filme “Love in the Afternoon” ; o clipe do início do filme "Closer" ; ser invadido pela vertigem ao chegar mais alto lendo “A Insustentável Leveza do Ser” ; Clarice Lispector estilhaçando o silêncio em palavras como um dos modos desajeitados de amá-lo.
Quem sempre quer vitória e perde a glória de chorar. Estão pra inventar um mar grande o bastante que me assuste e que eu desista de você. Jogando meu corpo no mundo. Eu fui lá fora e vi dois sóis num dia e a vida que ardia sem explicação. Deixe de lado esse baixo astral, erga a cabeça, enfrente o mal. Nós e a arte vamos vencer.

Estes textos foram publicados anteriormente no jornal Folha de São Paulo

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Sobre o autor

Tati Bernardi
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Tati Bernardi mora em São Paulo. Ela é escritora, roteirista e colunista do jornal Folha de São Paulo. Seu último livro é "Você nunca mais vai ficar sozinha" (Companhia das Letras, 2020).

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