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Histórias globais, vozes locais

Tati Bernardi

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Eu tenho motivos pra estar angustiada e louca e sofrendo?
A maioria das vozes da minha cabeça dizem que não,
porque sou privilegiada. 

Os motivos pelos quais você deve se isolar estão expostos gritante e repetidamente na imprensa, nos grupos de WhatsApp e nas redes sociais. Sim, você tem que se proteger, proteger sua família, seus funcionários, os idosos, os imunodeprimidos e, sobretudo, não engrossar o coro dos idiotas que vão colapsar o SUS.
Dito isso, agora me sinto na obrigação de te avisar de outra coisa: nesses dias de confinamento, não se assuste ao descobrir o quanto você pode ser infeliz. Calma, amigo, todos podemos.
Se você achava a maternidade o suprassumo da alegria, o ápice da sua vida, vai entender que só funciona assim porque você sai de casa algumas (muitas?) horas por dia.
Se você achava o seu casamento até que razoável “ perto de tudo que tem por aí " , vai começar a fazer contas pra ver se rola se separar ainda nesse mês.
Se você achava o seu cantinho das plantas “um momentinho delícia”, vai finalmente entender que você vive como um rato, numa casa entulhada de merda, numa cidade irrespirável. Suas plantas só te enganavam porque você saía cedo, atrasado, e voltava tarde, cansado.
Meu amigo, a vida é chata pacarai. É isso. E lá no fundinho da alma você sempre soube, mas estava puto demais com o trânsito e as encrencas da firma pra perceber.
Estou dizendo isso porque sou solidária e porque já trabalho em home office há mais de dez anos (dividindo o escritório com meu marido há cerca de três). Então sou experiente em querer largar tudo e sair correndo. E posso afirmar: essa vontade não passa.
Tem gente com doença grave, desempregada, em luto, criando três filhos sem ajuda de ninguém. A essas pessoas, peço perdão pela crônica leviana.
Mas para mim, e provavelmente para você, os dias de quarentena mostrarão apenas o quanto somos mal-agradecidos e o quanto o escapismo é o que mantém em nós algum entusiasmo.
Claro que amo a minha filha e amo o meu marido (amo bem mais a minha filha) e curto bastante o meu cantinho das plantas. Mas amar não significa se sentir plenamente animada. E eu só sou feliz porque tenho reunião. Desculpe, mas é verdade.
Eu só fico contente nas férias porque estou pensando em todos os trabalhos que vou poder fazer quando voltar mais descansada. Eu só me senti menos louca amamentando porque eu deixava um bloquinho ao lado, pra anotar ideias.
Eu sinto imenso prazer ao brincar com a minha filha porque nas oito horas que antecederam aquele momento eu realizei tarefas, estudei, li, aprovei projetos, recebi elogios profissionais, paguei as minhas contas.
Agora, com meus cursos paralisados, meus empregos que dependem de encontros presenciais também paralisados, ainda me resta escrever. Ou seja: eu tenho pra onde correr. Seria bom que você tivesse também, amigo.
Calma! Antes de dizer ao seu mozão o quanto você o odeia, antes de traumatizar seu filho adolescente com a frase “que merda eu fiz com a minha vida” e antes de enlouquecer e sair quebrando seus vasinhos ridículos de suculentas, respire e repita comigo: a vida é chata pra todo mundo.
A minha vida é um porre. A vida do seu vizinho é insuportável. A gente só estava em reunião, no ar-condicionado, desejando tão loucamente voltar logo pra essa casa apertada e pra essa vida “igualzinha à dos outros e igualzinha à de ontem” que não percebia.
Você queria mais, eu sei. Ah, como era bom ser sozinho e planejar e namorar e viajar sem dia e hora pra voltar. Era bom? Mesmo? Era nada. Era um saco também. Era uma solidão da porra. A gente só não percebia porque estava em reunião. Em suma: fique em casa e lave as mãos. 

*

Semana passada comprei uma flauta. Eu não toco nenhum instrumento e não pretendo aprender a tocar flauta. Nem sei onde ela está agora. Já não lembro mais como é usar maquiagem e sapatos. "Ah, tadinha dela! Que problemão, hein, princesa? Encastelada em sua angústia branca na zona oeste, né, minha filha?" Vocês ouviram? Essa é uma das muitas vozes da minha cabeça. Pelo menos "o superego com consciência social" é uma voz amiga. Às vezes mais amiga dos outros do que minha. Pior é quando ouço de repente: "Agora chão! Dez flexões, ô baranga do braço de polenteira!", ou "sem uma base em filosofia você não vai entender nada, ignorante!". Eu levo bronca o dia inteiro trancada sozinha no meu escritório. Já nem sei o que estou escrevendo. Você também está louco?

As vozes "sororidade tá na moda" e "compaixão & psicanálise" me recriminam toda vez que listo meus ódios antepassados. Mas, por Deus, são 28 dias enfurnada aqui e estou dando defeito. Enquanto tomo banho me volta uma raiva louca de gente com quem briguei no colégio, na faculdade, nos meus primeiros empregos. Ontem liguei para o Luis, que é o meu melhor amigo, e comecei a falar mal de uma colega nossa: "Ela achava que eu tinha conseguido o emprego porque jantei com aquele cara horroroso. Eu vou ligar AGORA pra ela e". Ele primeiro ficou em silêncio, provavelmente incrédulo, depois teve um ataque de riso: "Mas isso faz 11 anos!". Eu sei, mas tá voltando tudo. Você também sente que quanto mais se isola, mais o passado se isola junto? Ontem eu lembrei que, na segunda semana de namoro com o Pedro (há mais de sete anos), ele me levou a uma festa de "gente do cinema" e desapareceu. Brigamos duas horas por causa disso. "Quem você pensa que é? Eu me senti uma idiota! Isso não vai ficar assim! A próxima festa a que nós formos, se um dia as festas voltarem a existir". Pedro me preparou um chá e falou da sua esperança sobre uma vacina pra daqui a um ano e meio.

Eu tenho motivos pra estar angustiada e louca e sofrendo? A maioria das vozes da minha cabeça dizem que não, porque sou privilegiada. Eu tenho que fazer doação e cuidar dos velhos da família. Não posso pensar em mim numa hora dessas! Mas pra você, caro leitor, eu posso confessar que tenho pensado bastante em mim. Em cada decisão que tomei dos meus seis anos até hoje de manhã. E rumino e pondero e tento decifrar tudo que vai da minha capa até os escombros do meu caráter. E desafio meu corpo a chegar a todo microcantinho escondido da casa. E limpo e depois de novo e ainda acho que está sujo. Eu e a casa em vigília obsessiva. E compro caixas organizadoras toda semana pela internet. E quando chegam eu passo álcool nelas muitas vezes.

Eu sei que posso descer às cinco da manhã e aproveitar as ruas vazias. Talvez dançar e virar uma cambalhota. Mas quem quer acordar às cinco da manhã? Eu não estou no mood de dançar e não sei virar cambalhota. A única vez que desci nessa quarentena, no dia seguinte chegou uma circular nos apartamentos sobre "não utilizar o hall para tirar a roupa". Alguém ficou muito ofendido com a minha bunda caída. Me besunto tanto de álcool que comecei a ficar culpada (de acabar com o álcool do mundo) e passei a me besuntar de Listerine com álcool. Eu tenho cheiro de banheiro de churrascaria cara. Meu domingo foi inteiro dedicado a inventar uma maneira de as frutas e os legumes não emergirem na água com cândida. Toda hora eu dou um Google pra saber quais legumes e frutas são porosos, porque tenho medo de criar uma úlcera por ingestão de água sanitária. E nisso vai um dia. Não dá tempo de tocar flauta, e eu nem queria. O mamão é poroso?

*

Eu amava minha avó, mas tive que matá-la. Na frente de casa tem uma agência bancária da qual gosto muito. É lá que vou quando preciso sacar dinheiro do caixa eletrônico que, diferente da minha finada avó, funciona 24 horas.
Minha avó começava a bocejar às seis da tarde e capotava de sono às nove da noite, seu tempo de operação era incomparável ao de um caixa eletrônico. Por isso, quando nosso presidente me mandou escolher entre minha avó e a economia, matei minha avó.
Vovó fazia bastante carinho em meus cabelos. Ela também me elogiava: “Minha filha, você está cada dia mais bonita”. Mas, francamente, o salão de beleza do shopping faz muito mais por mim. Corta, lava, hidrata, escova, faz botox capilar, balayage e mechas californianas. Quando vou pagar a conta, me dizem o quanto sou chique, divina e poderosa.
Então, quando nosso presidente me mandou escolher entre minha avó e a economia, matei minha avó.

Sinto saudades, claro. Mas ela já caminhava com certa dificuldade e, segundo o médico, não tinha muito como melhorar. Já nosso ministro “Chicago boy” vive dizendo que a economia brasileira, hoje mais manca que minha finada vozinha, em breve estará correndo maratonas. Por isso, matei minha avó. Te aconselho a fazer o mesmo.
Não adianta só se vestir inteiro de verde e amarelo e ir pra Paulista mostrar que não tem medo de “gripezinha”. Arminha com a mão é para amadores. É preciso provar que é um verdadeiro patriota, matando sua avó.
Vovó falava mal dos irmãos, das amigas com quem viajava pra Serra Negra em excursão e, muito cá entre nós, metia o pau na minha mãe. Completamente diferente do pastor da igreja aqui do bairro. Esse aí só fala bem de todo mundo. Diz que somos escolhidos, abençoados, maravilhosos.
O presidente declarou que se não continuarmos lotando as igrejas… bem, ele não explicou exatamente o que isso tem a ver com a economia. Mas eu sei que tem porque não sou completamente idiota.
Então, entre uma velhinha fofoqueira e um dízimo salvador, eu preferi matar minha avó. Entre os R$ 100 que ela me dava no Natal e as facilidades que estão dando na hora de pagar as faturas dos cartões Havan, eu decidi matar a minha avó.
Entre seu afetuoso bolinho de bacalhau e o Baby Back Ribs com delicioso molho barbecue do Madero Steakhouse, escolhi dar cabo da velha.
Ah, eu estava cansada de ficar trancada aqui. Tudo pra quê? Evitar, como disse aquele empresário-apresentador (não à toa ele carrega justiça em seu nome) a morte de 10% a 15% de idosos?
Li em algum lugar que jovens também podem vir a óbito mas, francamente, só se eles não forem atléticos como o próprio empresário-apresentador e o nosso presidente-mito. A pessoa não malha e quem fica fraca é a economia?
Há dias em que saio bem cedo e volto bem tarde. Pelo caminho, encontro muita laranja e bananinha, um sinal divino de que estou no rumo certo. Claro que não é fácil! Estou péssima, deprimida, arrependida.
Nada no mundo compra o que eu sentia deitada no colo da minha avó (e, mesmo que comprasse, ainda está tudo fechado e pela internet pode demorar). Mas eu vejo uma luz no fim do túnel: acho que é uma agência de publicidade funcionando. Vai ficar tudo bem. Semana passada comprei uma flauta. Eu não toco nenhum instrumento e não pretendo aprender a tocar flauta. Nem sei onde ela está agora. Já não lembro mais como é usar maquiagem e sapatos. "Ah, tadinha dela! Que problemão, hein, princesa? Encastelada em sua angústia branca na zona oeste, né, minha filha?" Vocês ouviram? Essa é uma das muitas vozes da minha cabeça. Pelo menos "o superego com consciência social" é uma voz amiga. Às vezes mais amiga dos outros do que minha. Pior é quando ouço de repente: "Agora chão! Dez flexões, ô baranga do braço de polenteira!", ou "sem uma base em filosofia você não vai entender nada, ignorante!". Eu levo bronca o dia inteiro trancada sozinha no meu escritório.

Já nem sei o que estou escrevendo. Você também está louco?

Estes textos foram publicados anteriormente no jornal Folha de São Paulo

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Sobre o autor

Tati Bernardi
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Tati Bernardi mora em São Paulo. Ela é escritora, roteirista e colunista do jornal Folha de São Paulo. Seu último livro é "Você nunca mais vai ficar sozinha" (Companhia das Letras, 2020).

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