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Histórias globais, vozes locais

|| Saudades do futuro

Ep 2/3 - Corra, Iza, Corra

Walid Hajar Rachedi

É o dia da prova. O exame de sua vida. Quinze minutos de atraso e a Izadora não terá permissão para fazer a prova. Presa em congestionamentos causados pelas enchentes, ela perde a esperança. Mas para Edilson, seu amigo da Villa Kennedy que a está levando para lá, desistir está fora de questão! Foco. Força. Fé.

Tradução : Michelly Alves [ Foto de Walid Rachedi ]

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48 minutos. Esse é o tempo que resta para Izadora chegar à sala de exame.

A Avenida Brasil é seguida pela via expressa, Linha vermelha, que segue ao longo do mar para descer em direção à encosta sul da cidade, mas o trânsito ainda é muito lento na pista molhada. Por mais que Edilson buzine, nada adianta. Ele liga o rádio em busca de distração. Jorge Ben Jor arrasta sua voz rouca ao longo de um samba triste: Linha Vermelha, que segue ao longo do mar para descer em direção à encosta sul da cidade, mas o trânsito ainda é muito lento na pista molhada. Por mais que Edilson buzine, nada adianta. Ele liga o rádio em busca de distração. Jorge Ben Jor arrasta sua voz rouca ao longo de um samba triste:

Chove Chuva / Chove Sem Parar 

 

Desanimador.

Se parou de chover, o céu ainda está cheio daquelas nuvens que o Rio Janeiro nunca sabe o que fazer. O Rio é uma cidade feita para o sol, pois algumas pessoas são feitas para a alegria. Fora dessas condições, eles perambulam, perdidos. A cidade tem mil distrações, só o sol lhes dá uma razão de ser.

À sua esquerda, do outro lado da faixa de água, na Ilha do Governador, está o Aeroporto Internacional do Rio, Galeão. Izadora observa os aviões decolarem, insolentes.

– Deixa pra lá, nunca vamos chegar lá, murmura ela.

– O quê? Claro que sim, chegaremos lá! Talvez com um pouco de atrasoe, mas chegaremos.

– Se você chegar após quinze minutos do início da prova, eles não te deixam entrar.

– E assim, sem mais nem menos, você quer desistir… Três anos que você se prepara para essa prova, e agora que finalmente se qualificou para a segunda fase… E além disso, na melhor universidade…

– E com uma bolsa integral… 

– E você quer desistir… Vou te levar é para um hospício, minha filha!

– Mas não, não vou desistir… Estou apenas cansada de toda essa pressão. O tempo todo.

– Eu não quero ouvir… Cansada você estará amanhã! Hoje você vai para aquela maldita prova e vai passar!

Izadora passa as mãos em suas tranças, bufando alto. Edilson, em seu ímpeto:

– O que faz, você faz para você. Primeiro para você. Mas você também faz isso por nós. Para todos nós. Você sabe disso, hein? Sabe que isso é importante?

– Eu sei disso. Sei bem demais. Fabiana não cansa de me repetir: Abrimos o caminho.

– Então, vá em frente! Abra o caminho! Foco. Força. Fé.

Os olhos de Edilson faíscam fogo. O veículo dividiria o fluxo de carros em dois, como Moisés separando as águas, se dependesse apenas de sua força de vontade.

Foco. 

Força. 

Fé. 

Izadora repete esse mantra para si mesma. Seu coração apertou ao pensar em decepcionar aqueles que depositavam tanta esperança nela. Sente seu celular vibrar na sua bolsa. Ela deixa tocar, incapaz de atender as chamadas de sua mãe, sua irmã. Finalmente envia uma mensagem texto: “Estou a caminho”, sem ter certeza de quem é.

Fabiana, Edilson, sua mãe. Sua trindade.

Perto do estádio do Maracanã, Edilson sai da via principal para entrar nas ruas acidentadas do bairro de São Cristovão. Ele diminuiu a velocidade, examinando as fachadas das lojas dos edifícios, como se procurasse por algo. Izadora não ousa perguntar o quê. Talvez ele tenha finalmente admitido que a corrida deles estava condenada ao fracasso?

Sem avisar, ele sai do veículo e chama um menino que está em sua motocicleta em frente a um café. Dá-lhe alguns trocados. Pouco depois, acena para Izadora. Que não entende. Edilson retorna a caminho do veículo, capacete de motociclista à mão.
Então, bora? Grita ele.

E lá vão eles, na motocicleta, lançados no túnel André Rebouças, ziguezagueando entre os carros, correndo todos os riscos. Como em um videogame. Buzinas e xingamentos dos motoristas descontentes não atrasam Edilson. Pelo contrário, acelera. Está extasiado feito um torcedor acompanhando o placar: “Na Vila Kennedy, não desistimos!” Izadora acha que o tio de Edilson vai lhe dar um baita sermão quando descobrir onde deixou a sua van. E sua mãe… Sua mãe teria um ataque cardíaco se os visse assim. Mesmo assim, ela se sente segura aninhada nas costas de Edilson, com as mãos em volta da sua cintura. Ela sente que nada poderia acontecer com eles.

Mas na avenida que acompanha a Lagoa, na Zona Sul, perto de onde ficava a Favela Praia do Pinto quarenta anos antes, o patrulhamento da Polícia Militar se multiplica. Edilson deveria ir mais devagar. Izadora não se atreve a lhe dizer. Em seu relógio, ela vê a hora em que deveria estar na frente de sua prova que se aproxima irresistivelmente, a distância entre ela e aquele lugar reduz. Edilson sabe e continua ziguezagueando entre os carros, driblando os semáforos vermelhos. Não há o que fazer. Bairro Gávea, Praça Santos Dumont à vista, estão quase no destino, Uma luz vermelha se aproxima, a Polícia Militar faz soar suas sirenes. Precisam parar.

– Já estávamos quase lá, lamenta Izadora, que tira o capacete.

– Corre, Iza! Edilson ordena, tirando o capacete de suas mãos. O prédio fica do outro lado!

– E você, o que você vai…

  – Porra, corra, Iza, corra!

E Izadora corre. Como louca. Acredita escutar a polícia pedindo para ele parar. Não ousa se virar para ver se é fruto de sua imaginação. Não ousa dar a volta por medo de que o tratamento de Edilson, o tratamento de jovens negros, favelados, lhe quebre as pernas. Isso lhe tira todo o desejo de continuar.  

Então ela corre ainda mais rápido, a Iza.

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Sobre o autor

Walid Hajar Rachedi

Co-fundador de Frictions e Diretor de Publicação. Sou um autor e especialista em digital. E um globetrotter incurável. Já vivi em várias cidades estrangeiras. Eu falo cinco idiomas. E o melhor presente que posso receber é uma boa história.

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