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Histórias globais, vozes locais

|| Saudades do futuro

Ep 3/3 – Sonhos despertados

Walid Hajar Rachedi

Em 31 de dezembro de 2009, o futuro virá. É a promessa de uma festa de réveillon na praia de Copacabana. Izadora e seus amigos imaginam, cada um à sua maneira, como será a vida em 2020?

Tradução : Michelly Alves [ Foto de Walid Rachedi ]

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Junho de 2009. Nesta folha, Izadora lê seu nome. Como uma segunda certidão de nascimento.

Ela permanece, por um momento, congelada olhando, sem poder acreditar. Se Fabiana, sua irmã, não estivesse ao seu lado, se não a ouvisse alegrar-se por ela ao telefone – e já fizesse planos com sua mãe para o que estava por vir: “Vai ser um longo caminho desde Vila Kennedy… A tia Lidya não tem um quarto para ela em Santa Teresa?” – ela pensaria que estava sonhando com essa cena. Mas não, ela foi admitida na Universidade.

Quando ela liga para Edilson, ele tem um jeito próprio de se alegrar por ela.

– São eles que têm a sorte de ter você! Não estou preocupado com suas notas. Só espero que seja bem recebida… Essa gente tem o coração seco.

Nó na garganta. É difícil responder qualquer coisa para ele. Vinte e quatro horas sob custódia policial. Por sua culpa. Para que ela pudesse chegar a tempo para o exame ­– sob o pretexto de direção perigosa, somou-se a isso a recusa insolente de revelar a identidade da garota que saiu correndo na frente da Polícia Militar. E se o Professor Costa não tivesse chegado à delegacia, não tivesse dado alguns telefonemas, aposto que sua estadia ali teria sido bem mais longa.

Essa gente.

Isso é o que também assusta sua mãe. Depois de um momento de lágrimas e euforia, onde viu neste evento um gesto de Providência –  Graças a Deus ! (Ela repetia – de repente ela temeu por Izadora. Que, por querer mirar muito alto, de repente tudo pode lhes ser tirado.Como o mundo antes de Noé. Ela perguntou ao pastor Eraldo como protegê-los da má sorte De olho gordo. Ele disse que oraria por suas filhas. Mas para que funcionasse, ela e Fabiana precisavam vir à igreja com mais frequência. Como proteger sua casa se não comprar um seguro? Ouviu a mãe de Izadora dizer. Nesse domingo, ela pagou duas vezes o dízimo.

À noite, na TV, quando Marina Silva, a ex-ministra do Meio Ambiente, e a primeira filha de um seringueiro eleita para o Senado, anuncia sua intenção de deixar o PT, partido de Lula, na mira da próxima eleição presidencial, Fabiana brinca:

­– Você vai ver, um dia serei eu em seu lugar!

A mãe de Izadora parecia apavorada. Porém, ela gosta de Marina Silva. Mesmo que não entenda realmente sua luta pelo meio ambiente… Ela continua sendo crente, evangélica, além disso. Uma mulher que compartilha seus valores. Uma mulher com coragem.

– É o professor Costa que mete essas ideias na sua cabeça? A política estraga as pessoas, decreta ela. Sobretudo pessoas como nós.

Fabiana não disse nada, mas Izadora a sentiu tensa como um arco. Ela entendeu sua revolta silenciosa. Mais tarde, ela se lembraria dessa cena e diria que se sua mãe não tivesse dito aquelas palavras em um tom tão resignado, o resultado teria sido menos trágico.

***

Novembro. Izadora se mudou para um quartinho na casa da tia Lydia, no alto do bairro de Santa Teresa. Santa Teresa? Suas casas coloniais, suas lindas ruas de paralelepípedos, até as favelas são coloridas… É bacana, boêmio, segundo seus colegas de faculdade. Boemia, certamente para os jovens da Zona Sul que montam em um bonde – este falso bonde elétrico amarelo vintage – nos fins de semana para tomar uma bebida com vista para a Baía de Guanabara. Bacana, nem tanto… quando é hora de ir para casa depois da aula à noite. Se Izadora pudesse ir às aulas durante o dia, seria uma história diferente… Mas ela é do turno noturno, dos alunos que trabalham durante o dia, mais velhos, menos classe média alta, menos brancos também… Izadora se dá bem com os estudantes de sua turma. Eles têm a mesma preocupação. Falam a mesma língua. Com os do outro turno, durante seus trabalhos conjuntos, às vezes é complicado. Eles não compreendem seus desafios. Imaginam que ela ganhou um passe-livre. Alguns fantasiam sobre cotas como um bilhete de loteria milagroso que a teria salvo de trabalhar. Cotas que, de acordo com alguns professores, baixariam o nível como uma mistura desagradável que rebaixaria a raça. Ela tem o cuidado de não reagir. Não tem o desejo de compartilhar os detalhes de seu percurso combatente. Por modéstia. Por horror de ter que se justificar.

Fabiana lhe diz que é direito seu estar nesta universidade. Um direito adquirido com muita luta. Pelos mais velhos. Nada nos será dado. Foco. Força. Fé. Quando ela escuta sua irmã, apesar de seus vestidos floridos e do sorriso que nunca perde, ela às vezes tem a impressão de estar enfrentando o soldado de uma guerra que não diz seu nome. Às vezes gostaria de reencontrar aquela com quem compartilhava as brincadeiras de infância, ensaiava as coreografias do baile funk onde entrava escondida de sua mãe.

Como o turno diurno, Izadora também gostaria de ser leve às vezes. Poder voltar para a casa da tia Lydia sem se perguntar se a Polícia Militar vai impedir as vans de circular. Gostaria de beber uma caipirinha com os outros nos bares vibrantes da Lapa e depois dançar em uma casa de samba até que a noite se encontrasse com o dia. Ela, Iza, gostaria de se sentir livre.

la gostaria de pressionar o botão de avanço rápido às vezes. Acordar uma manhã e ter trinta anos de idade. Ter uma casa própria. Um diploma. Um trabalho. Alguém que a abraçasse. Não pensar mais no amanhã como uma provação a ser enfrentada. Salvar sua mãe dos próprios desejos. Ser uma mulher segura de si. De suas escolhas. Viver, enfim.

*** 

31 de dezembro. Dia de festa. Os cariocas vestem suas roupas brancas. Mais de um milhão de pessoas rumam para as praias da Zona Sul. Alguns têm flores nas mãos, que atirarão ao mar em homenagem à Iemanjá, protetora dos pescadores e marinheiros, sincretismo dos ritos africanos e das tradições cristãs. Dos morros temos a melhor vista dos fogos de artifício que vão iluminar o céu à meia-noite. Por uma noite, todos recebem a sua parte.

Izadora também vestiu suas roupas leves. Ela deve encontrar Edilson e outros amigos da Vila Kennedy em frente ao Posto 6, no final da praia de Copacabana. Mas a multidão comprime e seu celular não está recebendo chamadas. Ela vagueia por um momento em busca deles. Em seguida ouve uma voz feminina chamá-la. Ela se vira: é Gabriela, uma de suas colegas da faculdade. Uma loira de olhos sorridentes. Muito engraçada para uma garota de São Paulo. Uma das poucas da turma do dia com quem ela se dá bem. Ela não sabe se é por causa do sotaque paulista que soa como aquele da TV, mas quando fala na aula sempre tem a impressão de que fala algo inteligente. Quando ela fala de suas ambições, Izadora pensa: Ela quer ser jornalista. Eu só quero chegar ao final do ano.  Ela sente ciúme e admiração – de sua voz, de seus cabelos lisos… – ao vê-la se impor sem rodeios.

É com a mesma confiança que ela a leva a uma festa privada na praia. O espaço é delimitado por barreiras nas quais são hasteadas bandeiras de países estrangeiros. As entradas e saídas são controladas pelas pulseiras que são colocadas nos pulsos dos convidados. Gabriela exagera na conivência com os braços grandes que fazem a segurança para que Izadora possa ter direito à Sésamo. Estou com meu primo Antonio e uns amigos dele de São Paulo, você vai ver que são super legais! No bar, um rapaz de cabelos escuros com bochechas rechonchudas com os mesmos olhos risonhos de Gabriela acena para elas. Ao lado dele está outro rapaz magro de olhos claros. Parece o Chico Buarque eternamente jovem nas capas de discos de bossa nova de seu pai. Um Chico Buarque que teria os cabelos cacheados.

Ela não podia dizer o que havia de especial ali, mas encontrou algo nele… Alguma coisa em seu estilo. Ou talvez a maneira como ele olhou ao redor, a maneira como ele olhou para ela… Sim, a maneira como olhou para ela. Izadora gostou da ideia.

Mais alunos se juntam ao grupo enquanto chegam ao bar e dão um abraço em Antonio e seu amigo. Quando Izadora escuta o rapaz falar um português hesitante, ela percebe que ele é estrangeiro. Ela não tem tempo para se perguntar sobre suas origens quando Antonio em tom jocoso, diz: “Ele é o Matteo. Ele é da Itália. De Roma. Viveu em todos os lugares” Matteo sorriu como alguém acostumado a ser apresentado como um pássaro raro. Antes do Brasil, ele já visitou meia dúzia de países em quatro continentes. Em São Paulo, o jovem trabalha em um instituto de línguas, mas seu sonho é fazer filmes. Ele é bacana, hein, entusiasma-se Gabriela! Bacana talvez, mas não muito esperto: que ideia se enterrar em São Paulo, brinca Izadora que não se impressiona tão facilmente. A pequena multidão paulista a vaia gentilmente entre duas explosões de gargalhadas. Na entrada, um tipo diferente de gritos pode ser ouvido.
Por que você está criando problemas, já te disse que só quero falar com a minha amiga e vou embora! exclama uma voz familiar à Izadora. Ela se vira, entre Edilson e o segurança, o tom aumenta. Todos os olhos estão neles. Izadora apressa-se em direção à entrada. Gabriela segue seu exemplo. Ela não hesita em mentir para o segurança para acalmar a situação. Mas é claro que estão conosco! Nos perdemos de vista na multidão, eu não tinha bateria! Mas não é o suficiente para persuadir o segurança que quer ver as identidades de Edilson e seus dois amigos. Por que eu deveria mostrá-los a você? Você é da polícia? E além disso, essa é uma praia pública, não? O segurança continua tenso em sua posição. Edilson com fogo nos olhos e na voz: Vamos, Iza, vamos embora, este não é lugar para nós. Ela permanece sem palavras, incapaz de agir. Nesse ínterim, Antonio e Matteo se juntaram a eles. Um amigo de Edilson com voz amarga: Deixa, irmão, deixa. Ela encontrou novos amigos… O outro continua no mesmo tom: Sim, não vamos atrapalhar “a aluna”. Finalmente, é Gabriela quem desarma a situação: Não, mas podemos ir a outro lugar, hein, rapazes? Vamos comprar algumas bebidas e encontrar um lugar na praia para assistirmos juntos aos fogos de artifício, certo?

***

Meia hora depois, depois de feitas algumas apresentações e algumas cervejas terminadas, o clima é descontraído no grupo recém-formado. Só Edilson parece manter o mau humor que manifesta abertamente quando Matteo e suas improváveis anedotas de seus primeiros meses no Brasil se tornam o centro da conversa:

– Ah sim, para os gringos, o Brasil é sempre lindo… Caipirinhas, futebol, praia, garotas lindas… Venha para a Vila Kennedy, você vai descobrir outro país.

Matteo argumenta que é um momento em que os Estados Unidos e a Europa estão arcando com as consequências da crise financeira, o Brasil nunca experimentou um boom econômico tão forte, passando da 13ª à 7ª posição no mundo, que o país está bem colocado para organizar a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016 na esteira… E que milhões de brasileiros foram tirados da pobreza sob o governo Lula. Inédito.

Izadora adora ouvir o italiano de olhos claros falar sobre este país desconhecido que leva o mesmo nome que o dela. Que bonito é o Brasil sonhado por Matteo, um país que tudo daria certo, com terras férteis e subsolos que protegem da miséria, onde o trabalhador analfabeto poderia se tornar presidente, onde a mestiçagem originária de seu povo a protegeria do racismo, e sua cordialidade a protegeria da crueldade dos homens…

– Esse é o país do futuro… zomba Edilson.

Matteo, que não percebeu a ironia dessa frase que se tornou proverbial no Brasil – a de um futuro há muito prometido que nunca aconteceu – se entusiasma:

– Exatamente, o futuro é o Brasil!

E Gabriela, para amenizar o tom da conversa, comenta:

– Eu diria que até no Brasil já estamos no futuro… Olha só aquele ali! Ela ri, apontando para um camelô com óculos de papelão cintilante na ponta do nariz, cuja moldura apresenta os números de 2020. Uma ideia que impulsiona seu negócio: fazemos fila em seu negócio tanto pelas suas caipirinhas, quanto por uma imagem do futuro.

E o pequeno grupo passava a sonhar alto do que poderia ser 2020: Gabriela ia gostar de ter se tornado jornalista e de ter vivido em Paris. Matteo ia gostar de ter realizado filmes e tê-los visto exibidos em um cinema d’art et d’essai em Roma, onde costumava ir quando era adolescente. Os amigos de Edilson sonham com um negócio de sucesso, com carros bonitos, com mesas o ano inteiro nas discotecas chiques de Ipanema e da Barra da Tijuca, de férias na Flórida, na Disney. Izadora aponta para o último andar de um prédio com vista para a praia, onde ela podia se ver vivendo:

– Seria um apartamento grande, um apartamento muito grande… Minha mãe e minha irmã poderiam vir quando quiserem. Elas teriam seu próprio quarto!

Izadora vê um brilho estranho, algo quase doloroso, passar pelo olhar de Edilson. Ela não sabe como interpretar. 

– E você, Edilson, onde se vê em 2020?

Com a pergunta, Edilson se levanta sem dizer nada. Então, depois de alguns passos, ele se vira e diz com um sorriso forçado nos lábios:

– Vou buscar uns cigarros… Já volto.

Um de seus amigos não tem tempo para lhe dizer que tem algo que o ajude… Edilson já desapareceu no meio da multidão. Izadora tenta encontrá-lo com os olhos. Em vão.

2020 continua sendo uma utopia. 2010 finalmente é anunciado com o som e as cores dos fogos de artifício. Por um momento, um breve momento, a visão embaçada pela espuma de sua cerveja e por esses corpos bronze, marfim e ébano que avançam juntos em direção ao mar, os pés nessa areia de açúcar mascavo, o rosto voltado para o céu com milhares de faíscas, Izadora quer acreditar que nasceu no lugar mais lindo da Terra. Que o caos nunca prevalecerá sobre a beleza.

Saudades de seu pai.

Então quando a contagem regressiva chega ao fim e todos se abraçam para se desejar o melhor para o ano, melhor, para a próxima década, ela cede ao desejo daquele beijo que tinha em mente desde aquele momento em que Matteo a olhou daquela maneira engraçada. Ela cede aos seus lábios e ao seu olhar, mas cede ainda mais à louca esperança de um futuro do qual Matteo falava que nasce nela, um futuro que só esperava por ela para se concretizar.

***

De manhã, Izadora acorda com uma terrível dor de cabeça, o corpo doendo como se tivesse levado uma surra forte durante a noite. Ela enterra a cabeça no travesseiro, mil imagens se chocam em sua cabeça… Aquela de um sonho, ao mesmo tempo enevoado e estranhamente detalhado, em que acontecimentos surreais e rostos familiares se misturam. Ela sonhava com grandes manifestações no Brasil, com o som de panelas ecoando nas janelas das grandes cidades, com uma mulher eleita presidente destituída ao vivo pela televisão, com a seleção humilhada em casa na Copa do Mundo… Realmente, que imaginação! Izadora se pergunta de onde ela tirou tudo isso… Com os olhos ainda fechados ela apalpa a mão ao lado da cama. Estranho, ela não reconhece a textura do chão… Ela abre os olhos, para a confirmação do que havia sentido: a cama em que dormia não é a dela. O quarto em que está é desconhecido para ela. A linda renda que ela usa também. Mas onde ela dormiu? Ela vai até a janela e pisa em um dispositivo no chão. Ela atende: é um celular. Ou melhor, algum tipo de Iphone. Ela já viu na vitrine de uma daquelas lojas do Shopping Leblon onde as últimas novidades tecnológicas brilham como diamantes, mas esse modelo lhe parece ainda mais liso, mais elegante… Ela aperta um botão ao acaso, e algo incompreensível acontece: É sua foto no papel de parede do celular. E esta data… O que significa esta data? 16 de março de 2020… Mas que merda é essa!? Ela exclama. Ela sente o coração apertar no peito, um início de pânico a toma. Ela corre para a janela e puxa a longa cortina dupla cujo tecido nobre escorrega por entre seus dedos. É uma enorme sacada com vista para a praia de Copacabana… onde ainda ontem ela comemorava o final da década. E a quem pertence esse reflexo no vidro? Quem é essa garota de cabelos lisos que pegou emprestado o seu rosto?

Uma batida na porta. Izadora se assusta, esconde seu corpo meio despido atrás da cortina. Na porta, uma voz masculina familiar:

Amore, você está acordada…? Gostaria que eu lhe fizesse um café antes de partir para o trabalho? Gostaria de ter ido com você ao hospital… É terrível o que aconteceu com a sua irmã… mas hoje de manhã é complicado na agência…

– Matteo…!? Mas o que você está fazendo aqui? E o que eu estou fazendo aqui? moi je fais là ?

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Sobre o autor

Walid Hajar Rachedi

Co-fundador de Frictions e Diretor de Publicação. Sou um autor e especialista em digital. E um globetrotter incurável. Já vivi em várias cidades estrangeiras. Eu falo cinco idiomas. E o melhor presente que posso receber é uma boa história.

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